BIOINFOOD traduz em produto escalável a pesquisa universitária inovadora e comprova o valor das parcerias com as instituições de ciência e tecnologia

Planejamento estratégico no SUS baseado em dados. Imagem: Divulgação
Uma descoberta científica só vira solução real quando encontra quem consiga desenvolvê-la e escalá-la. No Brasil, esse percurso é pavimentado por um tripé que une universidades, empresas e instituições de ciência e tecnologia (ICTs). A biotecnologia é um dos campos em que essa combinação mais se faz necessária. A pesquisa nasce na bancada, mas só ganha relevância quando encontra alguém capaz de transformá-la em processo e uma instituição com estrutura para apoiá-la até a escala industrial.
É dessa união de forças que surgem soluções para desafios concretos, como demonstra um caso recente que conecta ciência acadêmica e indústria no setor de biocombustíveis.
A equipe do Laboratório de Genômica e bioEnergia, vinculado ao Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, seguiu um caminho incomum para chegar à resposta. Em vez de apostar em tentativa e erro na bancada, os pesquisadores recorreram à bioinformática e percorreram extensos bancos de dados genômicos até localizar enzimas que nunca haviam sido testadas em leveduras industriais.
O trabalho resultou em uma levedura geneticamente modificada que amplia a eficiência da fermentação do milho. Nos ensaios de bancada, a nova cepa mostrou que consegue fermentar sem a glucoamilase adquirida pelas usinas e ainda recupera parte do amido que o processo convencional desperdiça. O efeito prático é duplo: mais etanol extraído da mesma quantidade de cereal e redução dos custos com insumos.
Com a patente resguardada, a tecnologia foi transferida para a BIOINFOOD, deep tech fundada por especialistas em biotecnologia aplicada com origem na própria universidade. A tratativa foi conduzida pela Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp), responsável por intermediar a relação entre a pesquisa acadêmica e o setor produtivo.
Nesse arranjo, as ICTs atuam como um elo importante, garantindo a estrutura física e científica para que empresas nascidas na academia cresçam. Desde 2020, a BIOINFOOD está instalada no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, onde desenvolve microrganismos para alimentos e bebidas.
Além disso, a empresa tem o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) como parceiro, que opera o acelerador de partículas Sirius. Esta parceria é escopo do PACE, programa de aceleração de deep techs do CNPEM.
Estrutura que viabiliza a inovação
Este licenciamento não é um caso isolado na trajetória da BIOINFOOD. Desde a fundação, a empresa construiu um histórico de captação que percorre as principais agências de fomento do País, com R$ 16 milhões obtidos em editais do CNPq, da Fapesp, da Finep e da Embrapii, além de recursos de fundos ligados à Amazônia e do Senai-SP. No tema leveduras para biocombustíveis, o impulso mais recente veio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), com R$ 3 milhões destinados a acelerar o desenvolvimento das leveduras mais eficientes.
Nesse processo, o País levou anos para estruturar o ambiente que viabiliza esse fluxo. Em conjunto com a Lei de Inovação (nº 10.973/2004), o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243/2016) criou as condições para que universidades protejam e licenciem tecnologias, firmem parcerias com o setor produtivo e até gerem empresas-filhas a partir de suas próprias pesquisas.
Antes desse arcabouço, o caminho entre a ciência e a indústria dependia quase que exclusivamente de esforços isolados. Ao fixar regras claras, o marco aproximou laboratórios e empresas e trouxe mais previsibilidade aos processos. Na prática, isso permitiu que inovações saíssem da bancada, ganhassem escala e se traduzissem em resultados reais para o setor produtivo.
No exemplo da levedura, o cenário favorece esse modelo. Segundo maior produtor de etanol do mundo, o Brasil responde por cerca de 27% da produção global do biocombustível. Durante décadas, a cana-de-açúcar foi a matéria-prima que sustentou esse posto. Agora, o milho ganha espaço a cada safra, respondendo por quase 25% do etanol produzido nacionalmente, um salto que só se tornou realidade com o avanço da biotecnologia.
O próximo passo dessa trajetória cabe à BIOINFOOD. Afinal, o desafio está no aprimoramento e na validação da solução em escala industrial, confirmando na planta os ganhos medidos em laboratório, principalmente a redução do amido que ainda escapa ao aproveitamento.
Se os resultados se repetirem fora do ambiente de pesquisa, a tecnologia pode se consolidar como um produto relevante para toda a cadeia do etanol de milho no Brasil, dando mais fôlego à competitividade do biocombustível nacional em um mercado muito disputado globalmente.
Mais do que o desfecho de um projeto, o caso retrata um modelo que o País precisa repetir. Quando universidade, empresa e instituição de pesquisa atuam em conjunto, a ciência deixa de ser promessa de laboratório e se transforma em resposta concreta para a indústria. Nascida na academia e criada dentro desse modelo, a BIOINFOOD ajuda a provar que o caminho existe e que a biotecnologia brasileira tem estrutura para percorrê-lo.