Memória da Eletricidade completa 40 anos preservando
mais de um século de história

Memória da Eletricidade completa 40 anos preservando a história do setor. Foto: Acervo Memória da Eletricidade
Painéis solares em telhados de residências, parques eólicos no Nordeste, baterias em leilão, redes inteligentes em estudo. Cada frente da transição energética gera relatórios, projetos e registros técnicos que hoje existem em papel ou em arquivos digitais frágeis. Por isso, preservar esse material antes que ele se perca virou uma disputa contra o tempo. Na linha de frente dessa ação está uma instituição com 40 anos.
Mais conhecido como Memória da Eletricidade, o Centro da Memória da Eletricidade no Brasil completa quatro décadas em 16 de outubro. Fundado em 1986 para guardar a história do setor, reúne atualmente quase 2 milhões de páginas de documentos textuais e mais de 230 mil itens entre fotografias, filmes, gravações e objetos.
Esse trabalho de preservação e difusão da memória do setor elétrico brasileiro é possível graças ao apoio de suas mantenedoras: AXIA Energia, Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Itaipu Binacional, Cepel, Eletronuclear, Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE) e Norte Energia.
O impulso mais recente veio em 2025, quando o projeto “Energia para o Futuro: Preservação e Difusão da História da Eletricidade no Brasil” foi selecionado no edital de Recuperação e Preservação de Acervos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Até 2028, a expectativa é organizar e acondicionar 918.900 páginas de documentação textual, além de milhares de itens iconográficos, sonoros e audiovisuais.

Mais de 230 mil itens integram o acervo da instituição. Foto: Gabriel Rechenioti / Acervo Memória da Eletricidade
O volume não é por acaso. Nos últimos cinco anos, a expansão das fontes solar e eólica, o avanço da geração distribuída e as discussões sobre modernização das redes e armazenamento de energia redesenharam o setor. Cada mudança produz documentação que, sem tratamento adequado, corre o risco de se perder, como aconteceu em outras épocas, com registros de transições anteriores.
“Chegar aos 40 anos demonstra a relevância de um trabalho que se mantém necessário mesmo diante das transformações do setor elétrico. Ao longo dessas quatro décadas, a Memória consolidou um patrimônio histórico que precisa continuar sendo preservado, mas também compartilhado e colocado em diálogo com a sociedade. Nesse sentido, reafirmamos nosso compromisso de investir em comunicação e ampliar a nossa visibilidade, aproximando esse patrimônio de públicos cada vez mais diversos.”, avalia Alberto Jardim, presidente da instituição. Para ele, o compromisso dos próximos anos é ampliar o alcance desse conhecimento.
Acervo que nasceu de doações
Grande parte do material veio de quem viveu o setor por dentro. Em 1988, dois anos após a fundação, o centro recebeu a biblioteca particular do engenheiro Léo Amaral Penna, hoje integrada à Rede de Bibliotecas da Energia, com mais de 160 mil itens, e o conjunto iconográfico do engenheiro César Rabello, que registrou a construção da Usina Hidrelétrica Alberto Torres, a Piabanha, no estado do Rio de Janeiro.
As doações se seguiram nas décadas seguintes. Mais de 60% do acervo de procedência pessoal já estava incorporado ao fim dos anos 1990. Em 2025, onze doadores levaram mais de 2.200 itens ao centro.
Do arquivo para a tela
Foi do acervo de Rabello que saiu uma das mostras mais recentes. Cerca de 400 registros fotográficos doados por seu neto, Cesar Rabello Cotrim, deram origem a uma exposição virtual sobre a construção da Piabanha, usina também conhecida como Alberto Torres, publicada na plataforma Google Arts & Culture em 2025.

História da construção de Piabanha se tornou exposição virtual. Foto: Acervo Memória da Eletricidade
Em um ano, foram quatro exposições virtuais. Uma delas recuperou a Exposição Nacional de 1908 a partir de imagens raras de Augusto Malta, um dos principais fotógrafos da história do Rio. Outra contou a trajetória da Usina Flutuante Poraquê, construída nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial e trazida ao Brasil nos anos 1950. Até 1991, a usina levou energia a cidades como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Manaus em momentos de crise de abastecimento. Sua operação foi reconstruída a partir de um livro de bordo com registros diários.
A estratégia digital mudou a escala do público. Entre janeiro e setembro de 2026, o centro acumulou cerca de 50 menções na grande mídia, no Instagram, já ultrapassa os 120 mil seguidores e o acervo digital recebe por ano, cerca de 2 milhões de acessos.
Preservar o presente
O trabalho também saiu do arquivo. Entre 2021 e 2023, a instituição organizou milhares de documentos da construção e da operação da Itaipu Binacional, de estudos técnicos dos anos 1950 a CDs e disquetes, suportes que envelhecem mais depressa que o papel. O esforço deu origem ao Convênio Memória Itaipu, que entre 2023 e 2026 coletou 50 depoimentos de história oral e tratou mais de 100 mil fotografias.
Em Brasília, a memória do setor ganhou espaço físico. Inaugurado em março na sede do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o reúne conteúdos históricos e tecnológicos sobre a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN), com curadoria do centro e a exposição interativa “Energia que Conecta”.
Em junho, uma parceria com a Fundação Memória do Transporte (FuMTran) aproximou os acervos de energia e transporte, divididos em 19 lotes para tratamento. E as trajetórias individuais seguiram virando livros: a coleção “Depoimento Biográfico” dedicou volumes a José Antonio Muniz (2023) e José Luiz Alquéres (2024), e o próximo título será sobre o engenheiro Altino Ventura, ex-presidente da Eletrobras, atual AXIA Energia.
“Por trás de cada grande transformação do setor elétrico, existem pessoas com histórias incríveis. Quando criamos um espaço multifuncional como o Espaço Cultural Mario Santos ou transformamos trajetórias em livros, estamos dando rostos para essa história, mostrando quem foram essas pessoas, o que elas viveram e o quanto contribuíram para o setor”, diz Claudia Trigueiro, diretora-executiva do centro. “Poder reunir essas memórias e fazer com que elas circulem e cheguem a novas pessoas é especial”, destaca.
Para o historiador Paulo Brandi, pesquisador da instituição desde 1987, os próximos anos exigem história oral, publicações e pesquisa científica. “Em razão da tendência de constantes transformações do setor, é importante que a Memória renove seu compromisso principal de preservação e disseminação desta trajetória. Acredito que o principal caminho seja impulsionar iniciativas de história oral, publicações editoriais, como os depoimentos biográficos, e retomar atividades de pesquisa científica. É o papel da Memória da Eletricidade ter essa história registrada e pronta para consulta”, define.
Se a história da eletricidade no Brasil é marcada por transformações tecnológicas, econômicas e sociais, a preservação de sua memória também exige um trabalho em permanente evolução. A atuação do Centro da Memória da Eletricidade no Brasil, ao longo de quatro décadas, é prova de que assim como o setor elétrico, as instituições de memória seguem se reinventando para seguir dialogando com a sociedade e fazendo com que esses diálogos possibilitem pensar novos futuros possíveis.