Dados coletados pela Expedição Zafra com produtores e empresários do setor na maior região produtora da commodity no Brasil traça um panorama mais realista e estratégico para quem negocia no mercado

Safra de café conilon no Espírito Santo pode cair 30% em 2026 devido ao clima e ao desgaste das lavouras. Imagem / Divulgação: Adobe Stock
A possível quebra de 30% da safra de 2026 do café conilon no Espírito Santo não deve se traduzir em pressão sobre os preços da commodity. A expectativa foi identificada durante a Expedição Zafra a Linhares. Como parte do trabalho de inteligência de mercado, a CEO da Zafra, Laura Rauscher, percorreu a região norte do território capixaba para conversar diretamente com o setor e construir uma leitura mais realista, robusta e estratégica para orientar clientes e parceiros.
Apesar do último boletim da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimar uma queda de apenas 4,2%, a equipe ouviu presencialmente cafeicultores, exportadores e especialistas, colhendo uma percepção que os levantamentos oficiais ainda não captam.
Responsável por aproximadamente 70% de todo o café conilon colhido no País, o Estado é o maior produtor brasileiro do grão, com Linhares no topo do ranking dos municípios.
Segundo os empresários consultados, a queda significativa da produção é resultado do desgaste das lavouras após a supersafra de 2025, assim como das condições climáticas desfavoráveis no pegamento da florada, que atrasaram a maturação dos grãos.
Em 2025, o Espírito Santo registrou a produção recorde de 14,16 milhões de sacas, um crescimento acima dos 43%, na comparação com o período anterior. “A safra anterior foi muito boa e deixou o produtor em posição confortável. É essa base que sustenta os valores negociados hoje”, avalia Laura.
Com o caixa reforçado, os cafeicultores conseguem cumprir com maior facilidade possíveis obrigações contratuais, aguardando preços mais favoráveis para novas negociações. “Há uma estratégia clara de espera. Ninguém precisa vender no preço que não quer”, avalia a CEO da Zafra.
Nesse cenário, a cadeia produtiva do café ganhou ainda mais segurança e previsibilidade com o anúncio do Conselho Nacional do Café (CNC) com os detalhes do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé) 2026/2027, que contará com R$ 7,368 bilhões para as linhas de financiamento.
Conexão com o arábica
Diferentemente do conilon, a estimativa é de safra cheia para o café arábica, com 45,8 milhões de sacas. Se a projeção do Conab se confirmar, o montante representará alta de 28% na comparação com o ano anterior.
Apesar disso, parte dos especialistas consultados durante a Expedição Zafra alerta que a qualidade do grão foi comprometida pelas condições climáticas. Essa informação encontra respaldo em alerta do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) sobre as chuvas nas regiões produtoras em determinada fase da colheita. “Um arábica volumoso e com qualidade afetada perde força na negociação e passa a disputar a atenção do comprador com o conilon”, explica Laura.
A esse conjunto de fatores, soma-se o avanço da colheita constatado presencialmente pela expedição em Linhares, o que praticamente define o volume disponível para negociação. “Diversos empresários capixabas consultados fizeram essa observação. Com grande parte do café já colhida, o que está no mercado é o que existe. Consequentemente, isso reduz o espaço para quedas bruscas”, avalia a CEO da Zafra.
Próxima safra surge no radar
Além dos fundamentos já observados, um novo componente passou a influenciar de forma relevante a formação dos preços: o risco climático para a próxima safra brasileira. Atualmente, o mercado começa a direcionar sua atenção para os meses de setembro e outubro, período decisivo para a florada e o desenvolvimento inicial da próxima produção de café.
Nesse contexto, o fortalecimento do fenômeno El Niño passou a adicionar um prêmio de risco às negociações. As preocupações estão concentradas principalmente na possibilidade de temperaturas elevadas e irregularidade das chuvas nas regiões produtoras.
Caso as precipitações ocorram de forma insuficiente ou mal distribuída durante a florada, o potencial produtivo da próxima safra poderá ser comprometido.
Avaliação do mercado
Apesar dos pontos avaliados, é importante destacar que esse risco ainda não representa uma perda de produção confirmada. Neste momento, trata-se de uma expectativa climática que vem sendo incorporada às posições dos agentes do mercado.
Portanto, parte da recente valorização deve ser entendida não apenas pela disponibilidade física do café da safra atual, mas também pela antecipação de um possível cenário mais restritivo para o próximo ciclo.
Para os compradores, o momento exige cautela. A estratégia não necessariamente deve ser a formação de grandes posições aos preços atuais, mas a manutenção de uma cobertura média de estoque, reduzindo a exposição caso o cenário climático se deteriore durante a florada.
Iniciativa da Zafra para aproximar os clientes da realidade do campo, a expedição em Linhares permitiu cruzar dados de mercado com a visão de quem produz e exporta. Para a executiva, a informação presencial qualifica a análise. Esse trabalho de inteligência de mercado, aliás, é um diferencial estratégico da empresa, possível graças ao relacionamento duradouro e sólido com diferentes empresários do setor.
“Claro que os números oficiais são importantes e necessários. Mas a visita a diferentes produtores e parceiros comerciais de longa data apresenta o contexto. É essa combinação que traz uma visão mais realista e estratégica do mercado para quem negocia café”, finaliza Laura Rauscher.