Estudo inédito simula perda de 121,3 milhões de toneladas da commodity
sem controle fitossanitário e repasse de 0,26 ponto ao IPCA

Perdas na produção de soja podem encarecer alimentos. Foto: Divulgação
Sem controle de pragas, doenças e plantas daninhas, a soja brasileira perderia 121,3 milhões de toneladas em uma única safra. Nesse cenário alarmante, os prejuízos seriam equivalentes a R$ 223,5 bilhões. Os dados fazem parte de estudo inédito da Universidade Federal de Viçosa (UFV) em cooperação técnico-científica com a CropLife Brasil, entidade que representa a indústria de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias agrícolas nos segmentos de bioinsumos, biotecnologia, sementes e defensivos agrícolas.
O prejuízo, porém, não termina na porteira. Com a elasticidade de preço calibrada a partir de dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), os pesquisadores calcularam quanto do encarecimento do grão seria repassado a cada alimento e ponderaram o peso desses itens na cesta de consumo. A estimativa chega a 0,26 ponto percentual de pressão no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Nos alimentos, o repasse aparece em escala menor, mas em cadeia: uma alta de 10% na soja pressionaria o óleo em 4,6%, o leite em 1,7%, o frango em 1,2%, os ovos em 1,1%, a carne suína em 0,6% e a bovina em 0,5%. Isso acontece porque o caminho até a mesa passa pelo farelo. É ele que vira ração e chega ao criador de aves, de suínos e de gado, de modo que o preço do grão define, lá na frente, quanto custa produzir leite, ovos e carne.

O trabalho para produzir o estudo mobilizou 17 pesquisadores da universidade. A conta começou pela safra real: área, produção e produtividade de cada estado vieram dos registros oficiais. Sobre esse retrato, a equipe sobrepôs os levantamentos de campo, que indicam onde cada praga, doença ou planta daninha aparece e com que força. Nessa equação, faltava a peça que traduz ocorrência em prejuízo. Essa informação saiu da literatura agronômica, de experimentos que medem há décadas quanto uma planta doente ou uma lavoura tomada pelo mato deixa de render.
Com as bases definidas, o passo seguinte foi simular. Cada estado foi recalculado 10 mil vezes, sempre em três hipóteses. Na primeira, o produtor não adota medidas para controlar pragas, doenças e plantas daninhas. Na segunda, o manejo segura 40% do estrago que aconteceria sem ele. Com 80%, a hipótese é de controle próximo do ideal.
A comparação entre as hipóteses permite avaliar o retorno do manejo integrado para a produção. A quebra média cai para 72,8 milhões de toneladas com o controle parcial e para 24,3 milhões com o controle ótimo, sempre na comparação com a lavoura sem nenhuma medida. “O estudo não é uma previsão, é uma demonstração do cenário extremo que ilustra o quanto o manejo importa para o bolso do consumidor”, explica Emerson Del Ponte, docente da UFV, doutor em Fitopatologia e pesquisador chefe do levantamento.
Menos soja embarcada, mais área necessária
A perda de produtividade sai do campo e chega até o porto: com menos soja disponível, o Brasil também teria menos grãos para vender ao exterior. Segundo a simulação, essa redução nas exportações representaria US$ 17,6 bilhões a menos em receita para o país a cada safra.
O relatório detalha a receita de exportação por estado e mostra Mato Grosso, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais com as maiores perdas potenciais de receita, com as maiores perdas potenciais de receita, justamente aqueles que sustentam a balança comercial do grão.
A conta também pode ser medida em área: de acordo com o estudo, repor o volume perdido exigiria 33,5 milhões de hectares adicionais de cultivo, uma extensão próxima ao estado de Goiás. O dado desloca o debate do campo econômico para o territorial. O manejo correto, ao preservar a produtividade, ajuda a evitar perdas de receita e a pressão por novas áreas para produzir.

O estudo também mostra que, mesmo com as medidas de controle adotadas nas lavouras, ainda há perdas. A média nacional observada na safra 2024/25 ficou em 3.622 quilos de soja por hectare, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em uma lavoura sem dano biológico, o potencial seria de 4.926 quilos por hectare. O intervalo de 1.304 quilos entre os dois números mede a pressão que atinge inclusive áreas com maior adoção tecnológica do país.
Acesso às ferramentas se faz necessário
Na lavoura tropical, o ataque não respeita calendário ou sazonalidade. Praga, doença e planta daninha se sucedem ao longo de todo o ano, e o que é aplicado contra elas perde efeito com o tempo, porque os organismos que sobrevivem se reproduzem e voltam mais resistentes no ciclo seguinte. Por isso o controle fitossanitário.
Os inimigos da soja não atuam em revezamento. Agem juntos, na mesma planta e na mesma safra. É por isso que a faixa de potencial comprometido é extensa: entre 54% e 65% de tudo o que a lavoura poderia render.

Nesse ambiente, o arsenal do produtor rural perde eficácia rapidamente. O que funcionou em uma safra não apresenta o mesmo desempenho na seguinte. A resposta depende da existência de uma alternativa disponível quando a antiga falha. É dessa dependência que o trabalho trata como condição para sustentar a produtividade.
“Na agricultura tropical brasileira, marcada por desafios fitossanitários no campo e pela alta demanda por alimentos, o manejo integrado é fundamental para promover a sustentabilidade das lavouras e contribuir para que a produção chegue à mesa do consumidor com qualidade e eficiência”, destaca Ana Repezza, presidente da CropLife Brasil.
Como complemento, Pedro Duarte, coordenador de Sustentabilidade da entidade, defende que o marco de aprovação de produtos acompanhe a realidade do campo. “Tanto a aprovação de novas soluções quanto a reavaliação das existentes precisam combinar rigor científico, agilidade e atenção à realidade da agricultura tropical”, afirma.
Para o consumidor, o dado que interessa está no fim da cadeia: 0,26 ponto percentual de pressão no IPCA, em um exercício que os próprios autores classificam como limite. Para o produtor, a decisão sobre o manejo acontece antes, no começo do ciclo, quando o custo do controle é comparado a uma perda que só se confirma na colheita.