Biotecnologia brasileira fermenta o futuro e aumenta a competitividade do
etanol, com aumento de produção, otimização e redução de custos

Foto: Divulgação / BioinFood
Com o preço do petróleo chegando a flertar com a casa dos US$ 120 o barril, o conflito no Oriente Médio expôs mais uma vez a fragilidade global provocada pela grande dependência de combustíveis fósseis. Entre debates e tratativas, surge novamente a urgência em adotar outras fontes de energia, até mesmo, mais sustentáveis, direcionando todos os olhares para os biocombustíveis.
Para o Brasil, surge uma janela de oportunidades para assumir o protagonismo no setor. Afinal, o país é o segundo maior produtor de etanol do mundo, responsável ao lado dos Estados Unidos por 80% da oferta global, segundo dados da Renewable Fuels Association.
O salto de competitividade, porém, não está relacionado apenas com o ambiente favorável ou o tamanho da safra. Antes de chegar ao campo, a inovação é desenvolvida em laboratórios, com os cientistas utilizando a biotecnologia para escrever os novos capítulos desta história.
Prova disso é a nova geração de leveduras com resistência elevada capaz de aperfeiçoar o processo de fabricação, aumentar a produção e garantir mais qualidade ao etanol. Detentora da patente, a Universidade Estadual de Campinas licenciou a cepa para a BIOINFOOD.
Por meio do programa de apoio à Comercialização de Propriedade Intelectual, a deep tech conquistou um financiamento de R$ 3 milhões para aprimorar o estudo científico, escalar e levar ao mercado soluções práticas e aplicáveis.
Biotecnologia em benefício do etanol
A inovação pode representar um divisor de águas para o setor, com as leveduras brasileiras aumentando a competitividade do biocombustível no mercado global. A expectativa é que o Brasil conquiste a produção recorde de 41,4 bilhões de litros de etanol na safra 2026/2027, segundo nova projeção divulgada pela Datagro, em maio, na New York Sugar and Ethanol Conference, nos Estados Unidos.
Utilizada anteriormente apenas na panificação e na produção de cerveja, as leveduras em sua versão 2.0 têm o potencial para aumentar de forma significativa esse número. Para isso, a inovação apresenta duas características importantes.
Cofundador da BIOINFOOD, o geneticista Gleidson Teixeira explica que as novas leveduras apresentam como diferencial a capacidade de converter em etanol determinados açúcares que os processos tradicionais desperdiçam. Consequentemente, isso aumenta a produção por quilo da matéria-prima. Outro diferencial da nova geração de levedura é a resistência a altas temperaturas, o que permite suportar com bravura os processos industriais para a produção do etanol.
Em um primeiro momento, Teixeira acredita que a descoberta tem a capacidade de contribuir em segmentos como de cana-de-açúcar e de milho, assim como o etanol de segunda geração, que converte resíduos como bagaço e palha da cana em etanol.
“As novas leveduras que propomos resistem a altas temperaturas ao mesmo tempo que convertem açúcares com maior eficiência, aumentando a produção sem a necessidade de investimento em infraestrutura ou expansão agrícola. Para a indústria, isso significa mais eficiência e competitividade direta no mercado global”, diz o executivo.
Biotecnologia sob demanda
Criada em 2018 por Gleidson Teixeira, Osmar Netto e Gabriel Galembeck como objetivo de desenvolver uma bebida com baixo valor calórico, a BIOINFOOD identificou o grande potencial da biotecnologia para contribuir com inúmeros processos produtivos.
De lá para cá, a startup se consolidou no desenvolvimento de processos biotecnológicos, convertendo o elevado conhecimento científico brasileiro em soluções escaláveis, eficientes e com baixo impacto ambiental.
Entre as soluções inovadoras desenvolvidas, a BIOINFOOD ressignificou a casca de aveia por meio de um em parceria com a SL Alimentos, indústria responsável por cerca de 90% deste cereal empacotado no Brasil.
Inicialmente utilizado na geração de energia térmica e em produtos específicos na alimentação animal, o resíduo foi convertido pela biotecnologia em xilitol, uma espécie de adoçante natural, ganhando um maior valor agregado.
Hoje, a deep tech atua no formato de biotecnologia sob demanda, mais conhecido como R&D as a service, contribuindo para o desenvolvimento sustentável dos setores de alimentos, biocombustíveis e agronegócio.
“Embora ainda pouco comum no Brasil, este é um modelo transversal que permite que empresas acessem conhecimento científico especializado com resultados mais rápidos e custos até 70% menores. É estratégico em termos de velocidade e redução de riscos”, explica Teixeira.
Com o amadurecimento dos processos, os investimentos significativos em infraestrutura e a formação de uma equipe científica qualificada, a BIOINFOOD acredita no potencial, nos diferenciais e na capacidade da biotecnologia brasileira para competir em condições de igualdade e, até mesmo, destacar-se em um mercado até então dominado por grandes grupos internacionais.
Prova disso é que uma das leveduras desenvolvidas pela BIOINFOOD superou em três indicadores-chave a principal referência do mercado, garantindo maior eficiência sem a necessidade de aumentar o volume de matéria-prima na produção. “Não competimos pelo tamanho, mas pela precisão. Nossa aposta é na personalização, entregando soluções desenhadas para a realidade de cada usina”, finaliza o cofundador da startup.